IA sem hype

IA em compras: normalizar proposta é fácil, comparar condição é o problema

Ler proposta em formatos diferentes e achar o item equivalente rende. O risco é comparar preço sem prazo, frete, garantia e imposto na mesma conta.

Leonardo Peron5 min de leitura

O ciclo de compras é uma sequência de traduções. Alguém pede um item com o nome que usa; o comprador procura fornecedor; três propostas voltam em três formatos; alguém monta um comparativo; alguém decide; o pedido vira documento. Quase todo o tempo vai nas traduções, e nenhuma delas é a decisão.

É exatamente o recorte em que um agente rende — e é também o processo em que o resultado bonito esconde o erro mais caro desta lista.

Três propostas, três formatos, uma tabela

A proposta chega em PDF com logotipo, no corpo de um e-mail, numa planilha com as colunas do fornecedor e, cada vez mais, como foto de tela. Não há padrão e não vai haver: quem manda é quem vende, e o comprador não impõe formato a quem ainda está avaliando.

Transformar isso em linhas comparáveis é leitura pura, com gabarito no próprio documento e conferência barata, e ler documento e contrato descreve a mecânica. Em compras, a lista de campos não para no preço: quantidade mínima, unidade, prazo de entrega, validade da proposta, condição de pagamento, quem paga o frete, garantia. Campo que o fornecedor não informou entra vazio, e vazio é informação — é a pergunta que falta fazer antes de decidir.

O item equivalente com o nome trocado

O segundo trabalho é reconhecer que "parafuso sextavado M8 x 40 inox" e "PAR SEXT M8X40 A2" são a mesma coisa, e que o terceiro fornecedor cotou outra bitola sem avisar. É casamento aproximado entre texto sujo e um cadastro, o feitio que aparece na conciliação bancária, com uma diferença: ali o erro some dentro de um saldo, aqui ele chega no caminhão.

Por isso o desenho é o de sempre: propor a equivalência e mostrar em que se baseou, nunca fechá-la sozinho. E a equivalência aceita precisa virar cadastro, senão o mesmo trabalho é refeito na cotação seguinte — quem é o dono daquele registro é a discussão de quem é o dono do cadastro.

O risco que o comparativo bonito esconde

Aqui está o erro específico desta função, e ele não vem do modelo: vem da tabela.

Um comparativo com uma coluna de preço por fornecedor é lido em três segundos e decide na hora. O problema é o que ficou de fora. Prazo de entrega: o mais barato entrega num prazo que a produção não aceita, e a parada custa mais que a diferença. Frete: uma proposta é posta na fábrica e a outra é retirada, e a diferença não aparece em nenhuma das duas. Imposto: o preço da proposta e o custo que entra na conta da empresa não são o mesmo número, e a distância entre eles depende de regime e de origem — quem sabe dizer isso é o fiscal, não o comparativo. Garantia: o item mais barato com reposição em outro estado fica caro no primeiro defeito. Condição de pagamento: à vista e a prazo não são o mesmo desembolso.

Um agente instruído a comparar propostas vai produzir a tabela que foi pedida, com a fluência de sempre, e a coluna ausente não fica vermelha. A defesa não é melhorar o modelo: é a lista de colunas ser da empresa, não do agente — escrita antes de qualquer cotação, com a regra de que campo não informado aparece vazio em vez de ser deduzido. Comparar, feita a lista, é aritmética sobre campos declarados, e aritmética pertence à regra: onde a IA não deve entrar.

Homologação: extrair documento é fácil, habilitar não é

Cadastrar fornecedor é juntar documento com validade — certidão, contrato social, certificação que o cliente final exige. Ler cada um e devolver emitente, número e data de validade é extração, e a vigilância que vem junto é o melhor uso da automação nesta etapa: avisar antes de vencer, em vez de descobrir na hora de emitir o pedido.

O que não é automático é habilitar. Aceitar um fornecedor é decisão com consequência e com responsável nomeado, e é uma das poucas do backoffice em que existe alguém interessado em influenciar o resultado. Some-se um detalhe de segurança que só aparece nesta função: a proposta que o agente lê foi escrita por um terceiro com interesse direto na comparação. Conteúdo que vem de fora é dado, nunca comando — e o que isso exige do desenho está em segurança de agente de IA.

O que precisa estar arrumado antes

Cadastro de item com unidade. Se a mesma peça existe em três códigos e duas unidades, não há comparação possível: há três respostas certas.

A lista de colunas do comparativo, escrita. É o entregável mais barato do projeto e o que decide o resultado.

O pedido de compra como documento, não como thread. Se o combinado mora num e-mail, a conferência da nota contra o pedido não existe — e é ela que sustenta o ciclo financeiro seguinte.

Alçada por valor e por categoria. Sem ela o sistema não sabe o que pode seguir e o que precisa de assinatura. Descrever isso é trabalho de processo, e vem antes de ser de IA.

A checagem

Pegue as três últimas compras relevantes e reconstrua o comparativo que decidiu cada uma. Para cada linha, aponte de qual documento saiu cada número.

Depois some, para o fornecedor escolhido e para o segundo colocado, tudo que não estava na tabela: frete, prazo, garantia, condição de pagamento, o que o fiscal diria sobre o custo real. Se em alguma das três a ordem mudar, o problema nunca foi a velocidade de montar o comparativo — e automatizar a montagem só faria a decisão errada chegar mais rápido.

Isso é o que fazemos em agentes de ia

Leitura de contrato e nota, triagem de atendimento, resumo de histórico. Com supervisão humana onde a decisão tem consequência — e a lista do que ainda não funciona.

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