Vendas e CRM

Por que ninguém preenche o CRM (e por que treinar não resolve)

O time não preenche o CRM porque ele pede dado que serve a outra pessoa. Os quatro motivos que aparecem sempre e o que costuma funcionar.

Leonardo Peron4 min de leitura

Toda empresa que comprou CRM já viveu esta cena: seis meses depois da implantação, a diretoria abre o painel para a reunião e os dados estão pela metade. Oportunidades paradas em etapas que já avançaram, campos obrigatórios preenchidos com "a definir", negócios fechados que nunca foram registrados.

A conclusão comum é que o time "não tem disciplina". Quase nunca é isso.

O CRM pede dado que não serve a quem preenche

Um CRM é desenhado para responder perguntas de gestão: quanto tem no funil, qual a previsão do trimestre, qual etapa perde mais. São perguntas legítimas e são perguntas de quem não vende.

O vendedor preenche para que outra pessoa consiga responder essas perguntas. Ele gasta quinze minutos por dia num trabalho cujo benefício é de terceiro — e o retorno que recebe é uma cobrança quando não faz. É um arranjo em que o custo é de quem executa e o benefício é de quem cobra, e nenhum treinamento resolve isso.

Onde o preenchimento funciona bem, quase sempre há uma troca: o sistema devolve algo que o vendedor quer. O histórico de quem já falou com aquele cliente, o lembrete que ele esqueceria, a proposta gerada sem redigitar, o número da comissão sem esperar o fechamento do mês.

Os quatro motivos que aparecem sempre

Pede duas vezes a mesma informação. O cadastro já existe no ERP, mas o CRM não conversa com ele. O vendedor digita nome, documento e endereço que a empresa já tem. Redigitação é o trabalho que as pessoas mais evitam, e evitam com razão.

Campo obrigatório que não faz sentido naquele momento. Exigir orçamento previsto no primeiro contato transforma o campo numa ficção: quem preenche chuta para conseguir avançar a tela. Depois esse chute vira relatório, e o relatório vira decisão.

Etapa que não corresponde à venda real. O funil foi desenhado com sete etapas porque o consultor sugeriu sete. Se a venda real tem três, o vendedor pula etapas ou marca todas de uma vez no fim — e o tempo por etapa, que era o indicador mais interessante, vira ruído.

Não devolve nada. Nenhum lembrete útil, nenhuma proposta pronta, nenhuma visibilidade da própria comissão. Sem contrapartida, preencher é imposto.

O que geralmente se tenta, e por que não pega

A primeira tentativa costuma ser treinamento. Funciona por três semanas, que é o tempo até a rotina voltar ao normal.

A segunda é tornar mais campos obrigatórios. Isso aumenta o preenchimento e piora o dado: campo obrigatório sem sentido produz valor inventado, e valor inventado é pior que campo vazio — um você sabe que não sabe, o outro parece informação.

A terceira é cobrança em reunião. Transfere o problema para a relação com o gestor e cria o hábito de preencher na véspera, tudo de uma vez, de memória. O dado existe e a data de tudo está errada.

O que costuma funcionar

Tirar da mão o que a máquina consegue. Se o lead entra por formulário, WhatsApp ou telefone, ele deve nascer no sistema com origem e horário preenchidos sem ninguém digitar. Isso não é conveniência: enquanto a captura depender de transcrição, o relógio do funil começa no momento errado, e o relatório de tempo de resposta fica bom com a realidade ruim — como o lead que chegou no sábado mostra.

Reduzir o funil ao que a venda tem. Três etapas que refletem a realidade valem mais que sete que descrevem um processo idealizado. Etapa só existe se alguém consegue dizer o que a faz mudar.

Devolver algo em cada preenchimento. Proposta gerada a partir do que já está no sistema, lembrete de retomada, histórico visível quando o cliente liga. Aqui o preenchimento deixa de ser imposto e passa a ser atalho.

Integrar o cadastro que já existe. Se o ERP tem o cliente, o CRM lê de lá. A integração entre os sistemas costuma resolver mais adoção que qualquer política interna, porque remove o trabalho em vez de cobrá-lo.

Quando o problema é o CRM, e não o time

Há um ponto em que a ferramenta é mesmo o obstáculo: quando a regra de negócio da operação não cabe no produto. Distribuição por rodízio entre filiais, comissão que muda por linha de produto, aprovação que passa pela matriz, catálogo com regra de preço própria — são coisas que produto de prateleira resolve com gambiarra em campo livre, e campo livre não vira relatório.

É o caso em que um CRM sob medida se paga: não porque é melhor, mas porque o funil passa a ter a forma da venda que já acontece. Em operação com força de vendas distribuída — concessionária, rede de franquias, imobiliária — essa diferença costuma aparecer cedo.

Como saber em qual caso você está

Antes de trocar qualquer coisa, vale localizar onde o funil realmente vaza. O diagnóstico do funil comercial faz oito perguntas sobre comportamento — o que acontece quando ninguém assume, o que sobra quando um vendedor sai — e aponta o eixo mais fraco.

Se o eixo mais fraco for Captura, o problema não é adoção: é que alguém precisa digitar para o lead existir. Nenhuma mudança de cultura conserta isso, e nenhum CRM novo também — só tirar a digitação do caminho.

Isso é o que fazemos em crm sob medida

O CRM que ninguém preenche é o CRM que não devolve informação. Construímos o funil no formato em que a sua venda acontece, e não no molde do produto.

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