Migração e legado

Rodar os dois sistemas em paralelo: o que o período de sombra prova

O que o paralelo realmente prova, quanto custa em trabalho dobrado, quais divergências são esperadas e como decidir a data de desligar o antigo.

Leonardo Peron5 min de leitura

A virada tem texto próprio: o cutover trata do fim de semana em que o sistema antigo para e o novo começa, com roteiro, ensaio e ponto de não retorno. Este trata das semanas anteriores, e não repete nada daquele — nem o roteiro da janela, nem o plano de voltar atrás.

A proposta chega sempre com a mesma frase: "vamos rodar em paralelo por um tempo, por segurança". Parece prudência barata. Não é barata, e a segurança que ela dá é mais estreita do que a frase sugere.

O que o paralelo prova, e o que não prova

Ele prova uma coisa, e ela é valiosa: dado o mesmo insumo, os dois sistemas produzem o mesmo resultado ao longo de um ciclo completo. É a única forma de exercitar as regras que só aparecem no fechamento — o rateio, o imposto, a virada de mês, o cliente com a condição especial.

Não prova que o sistema novo é melhor, nem que o time sabe usá-lo, nem que ele aguenta o pico. E não diz nada sobre o que ninguém lançou nos dois: o caso raro que não aconteceu naquelas semanas continua sem teste. Paralelo é amostra do que a operação fez, não do que ela é capaz de fazer — e por isso não substitui a decisão de quanto do histórico migrar.

Três formatos, com custos muito diferentes

Sombra técnica. O movimento é copiado para o sistema novo por integração e ninguém opera nele. Custo baixo. Prova cálculo e conversão; não prova uso, porque não passa por tela nem por decisão de pessoa.

Dupla entrada num recorte. Uma filial, uma família de produto, um turno: as pessoas daquele recorte lançam nos dois. Custo médio, e o formato que prova mais por real gasto — pega erro de cálculo e erro de uso na mesma passada.

Dupla entrada total. A operação inteira lançando em dois lugares. Quase sempre insustentável, e o pior é que ele desmorona em silêncio: o time começa a lançar no antigo e a "passar para o novo depois". O depois não vem, o novo fica com metade do movimento, e a comparação passa a acusar divergência que não é do sistema — é do preenchimento.

Nada disso é convivência, o arranjo em que um sistema escreve e o outro fica em leitura. Convivência não compara: ela reparte, para reduzir ruptura e não para produzir prova. É o desenho de trocar de CRM sem perder o histórico.

O custo real é maior que dobrado

Lançar duas vezes custa o dobro. O resto está em três lugares que ninguém orça.

A conferência entre os dois é trabalho novo, que não existia antes e não vai existir depois — e quem a faz costuma ser a pessoa que mais entende do processo. A decisão de qual manda aparece toda semana: se um cliente liga perguntando o saldo, qual dos dois números a pessoa lê em voz alta? Sem isso resolvido no primeiro dia, cada atendente decide sozinho. E o desgaste: trabalho dobrado com data de fim vaga faz o time torcer contra o sistema novo, e quem torce contra encontra defeito onde há estranhamento.

Quais divergências são esperadas e quais são defeito

A regra que separa as duas é única e desconfortável: divergência esperada é a que estava escrita antes de aparecer. Explicação encontrada depois do fato é hipótese, e hipótese conveniente demais costuma estar errada.

A lista se escreve antes de começar. Costuma incluir arredondamento com tolerância declarada, numeração de documento que não coincide, data de registro diferente da data do fato e campo que o novo exige e o antigo não tinha, preenchido com padrão combinado.

É defeito quando a mesma entrada produz valores diferentes sem regra que explique; quando a divergência muda de tamanho entre uma rodada e outra; quando alguém explica o caso mas não consegue reproduzi-lo; ou quando a diferença aparece só num subconjunto que ninguém caracteriza. O último é o mais perigoso: parece pequeno e é sistemático.

E há um sinal que não é divergência e vale mais que todos: o caso que só um dos dois consegue registrar. Se foi preciso inventar um contorno para lançar algo no sistema novo, os números batem e o processo não.

Como decidir a data de desligar

Não por prazo. Por evento, e por três ao mesmo tempo.

Um ciclo de fechamento inteiro rodado no sistema novo, com o resultado conferido contra a origem — o método está em reconciliação e não muda por causa do paralelo.

Nenhuma divergência em aberto sem classificação. Não "nenhuma divergência": nenhuma sem explicação escrita e sem alguém que a assine.

E o teste que quase ninguém faz: olhar o registro de escrita do sistema antigo. Enquanto alguém ainda estiver lançando lá porque "no novo não dá", o paralelo não terminou — terminou só na intenção.

A data precisa existir desde o começo, escrita, com dono. Sem ela, paralelo não vira segurança: vira operação com dois sistemas e nenhuma fonte da verdade. Quando o que sai é uma planilha, o raciocínio é o mesmo — está no caminho de saída das planilhas.

O levantamento desta semana

Durante cinco dias, peça ao time que anote toda vez que alguém abre o sistema antigo, e para quê. Uma linha por vez, sem julgamento.

Se as anotações forem quase todas de consulta, o paralelo pode acabar e o antigo vira leitura. Se houver escrita, cada linha é um requisito que o sistema novo não atendeu — e essa lista vale mais que um mês de comparação de totais, porque totais dizem que algo diverge e ela diz por quê. Quando o volume pedir método formal, é o mesmo da migração de sistema legado.

Isso é o que fazemos em migração de legado

Mapeamento campo a campo, reconciliação com o sistema antigo e cutover fora do horário comercial. O histórico vai junto e a operação não para.

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