Leonardo Peron5 min de leitura
"Quanto tempo leva integrar o ERP com a loja?" é uma pergunta feita antes de existir qualquer informação que permita respondê-la. Quem responde com um número está chutando ou já embutiu no preço a margem do chute. Quem devolve "depende" sem dizer do quê também não ajudou.
O que existe é um conjunto pequeno de variáveis que decidem quase tudo, e quem contrata pode levantá-las antes de qualquer conversa comercial. É o que transforma orçamento vago em orçamento defensável.
Não é a quantidade de sistemas, é a de entidades
O erro de estimativa mais comum começa no enunciado: "são só dois sistemas". Dois sistemas não são uma unidade de trabalho. A unidade é cada entidade que atravessa a fronteira, com correspondência, regra de conflito e casos de erro próprios.
Produto é uma. Preço costuma ser outra, porque tem tabela, vigência e exceção. Saldo é outra. Cliente, pedido, status, documento fiscal e financeiro são mais cinco. Mover só o pedido é um tamanho; a mesma dupla de sistemas movendo sete entidades é outro, e a diferença não é linear — cada entidade nova precisa concordar com as anteriores.
Some-se a direção: entidade que anda nos dois sentidos custa mais que o dobro, porque traz junto a decisão de quem é o dono do cadastro.
A qualidade da API do outro lado
Documentação existe quase sempre. O que varia é o que ela cobre.
Documentação boa descreve o erro: o que acontece quando um campo obrigatório vem vazio, o que o sistema devolve quando o registro já existe, qual o limite de chamadas, o que muda entre versões. Documentação ruim descreve só o caminho feliz, e o levantamento vira descoberta empírica — testar, anotar, testar de novo. Essa fase não entra em cronograma nenhum e é a que mais varia.
Quatro sinais dizem em qual dos dois casos você está, e dá para conferir antes de contratar: existe registro de mudanças da API? Ela tem versão declarada? Há exemplos de resposta com erro? Existe alguém a quem perguntar quando ela não responde?
Sem API, o caminho desce para arquivo ou banco, com os custos descritos em o que é integração de ERP — e, sem isso, a discussão vira RPA ou integração por API, outro projeto com outro perfil de manutenção.
Se existe ambiente de teste
É a variável mais barata de verificar e das que mais mexem no prazo.
Com ambiente de teste, cada hipótese custa uma tentativa. Sem ele, o teste acontece em produção: cada pedido de mentira é um pedido de verdade que alguém cancela, cada nota é uma nota, cada cadastro sujo fica lá. O ritmo cai não pelo desenvolvimento, mas porque toda tentativa exige combinação prévia com quem opera e limpeza depois.
Um parente disso costuma ficar de fora do plano: o acesso em si. Quando o outro lado exige registro de aplicação, aprovação ou credencial emitida por terceiro, o trâmite não consome trabalho do time, mas bloqueia a entrega no fim. Começa no primeiro dia, junto com o inventário de credenciais que vencem sem avisar.
Quem decide as regras de negócio
É a variável menos técnica e a que mais atrasa projeto.
A integração não decide o que fazer quando o cliente chega sem documento, qual preço vale quando a tabela do ERP diverge da do canal, ou se pedido cancelado volta saldo. Cada uma é decisão de negócio, e cada uma sem dono vira espera.
O que encurta o prazo é ter uma pessoa com autoridade e disponibilidade para responder. Não um comitê, não "a diretoria decide na quinta". Projetos com essa pessoa nomeada andam; projetos em que cada dúvida sobe um degrau param dias em perguntas de cinco minutos.
A fase que sempre é subestimada
Ligar dois sistemas dali para frente é um problema. O que já existe dos dois lados é outro, maior, e é onde a estimativa quebra.
O de-para é o primeiro pedaço: qual campo vira qual campo, qual código de um lado corresponde a qual do outro, o que fazer com o que não tem par. É um documento chato, detalhado em de-para de dados, e o mapeador existe para começá-lo antes do projeto.
A carga inicial é o segundo, e é onde a realidade aparece. Casar o que já está cadastrado nos dois lados é trabalho de reconciliação, não de programação: itens que existem só em um, códigos repetidos, cadastros duplicados que ninguém sabia serem a mesma empresa. É também quando se descobre que a regra que todo mundo jurou que valia tem exceções — e cada exceção aqui é decisão pendente, não linha de código.
Quem já passou por uma migração reconhece o padrão: é o trabalho descrito em reconciliação, aplicado ao ponto de partida.
O que levantar antes de pedir orçamento
Cada item abaixo tira uma faixa de incerteza do número que você vai receber:
- A lista de entidades que atravessam, com a direção de cada uma.
- O link da documentação de cada sistema, e a versão que a sua instalação usa. Versão importa.
- Se existe ambiente de teste e quem libera o acesso.
- Quem decide as regras de negócio, com nome, e quanto tempo tem por semana.
- O volume atual: pedidos por dia, tamanho do catálogo, quantos itens mudam de preço ou saldo num dia normal.
- O que acontece com o histórico — se a carga inicial inclui o passado ou só o que vier daqui para frente.
- Se o fluxo passa por intermediário: a decisão sobre hub ou conexão direta muda o escopo inteiro.
Com essas sete respostas, o estimador já devolve uma faixa útil e o levantamento começa adiantado. Sem elas, qualquer prazo dito é opinião — inclusive um curto, que é o tipo de opinião que sai mais cara.